Não é a primeira vez que me perguntam como é ser escritora e mulher,
como é ser jornalista e mulher,
como é ser lisboeta e mulher.
E eu a isso digo é exactamente a mesma coisa do que ser homem e escritor ou ser lisboeta e homem. E compreendam a minha perplexidade de ser confrontada comigo própria, com a circunstância de ser mulher e ter dois cromossomas XX. Aconteceu-me, não há muito mais a dizer e a sensação é exactamente a mesma – só que… com preconceito de género… só que… com desigualdade… só que… com descriminação. E isso faz toda a diferença. E daí o desgosto em perceber que uma iniciativa dedicada às mulheres, por mais anacrónica, por mais absurda, por mais obsoleta que nos pareça no século XXI, em plena Europa, numa cidade tão cosmopolita, tão na moda, tão no centro das atenções, como Lisboa… Perceber que estas iniciativas continuam, infelizmente, a fazer sentido. E continuam a ser muito incómodas para as forças políticas retrógradas que admitem, como se fosse uma graça, estas questões de género, e deixam-nos, a nós mulheres, passar à frente à entrada das portas, com um sorriso de benevolência, e de paternalismo. E nós, mulheres, não queremos a vossa condescendência, nem as vossas vénias e sorrisos. Nós, mulheres, nem sequer, queremos entrar por essa porta através da qual nos dão primazia. Porque, para o caso de muitos ainda não terem percebido, nós já estamos lá dentro. Há muito tempo…
E eu pergunto, desde a remota luta das sufragistas, que foi muito árdua e corajosa, no princípio do século passado, que mais é que as mulheres precisam de continuar a provar? Que têm capacidade intelectual? – bom, mas o ensino superior é frequentado maioritariamente por mulheres… E elas têm, aliás, melhores médias nacionais. E no entanto, apesar do mérito, do talento, do valor, do merecimento, existem situações de desigualdade flagrante na cidade e no país, o que nos leva passados 43 anos da ditadura, um longo meio século em que as mulheres foram humilhadas, aviltadas, subestimadas e intencionalmente menorizadas, cá estamos nós, este tempo todo depois, a insistir, a defender o óbvio. Porque a trabalho igual continua a não corresponder salário igual. Porque muitos, quase todos, os cargos de alta chefia continuam inalcançáveis para as mulheres. Porque o direito à maternidade e à gravidez, à licença de amamentação, continua a ser violado pelos patrões, com a conivência da sociedade que desvaloriza e governantes que ignoram. Portanto, a Luísa, a tal do poema do Gedeão continua a subir a calçada, sobe que sobe. Mesmo que seja a professora Luísa, a Engenheira Luísa, a Professora Doutora Luísa (para terem uma ideia nos quadros superiores a diferença salarial entre homem mulher para trabalho igual situa-se nos 28%). Continuamos todas a subir a calçada, a fazer o dobro do esforço para conseguir metade.
E reparem na pressão dramática a que estão sujeitas as mulheres. Com sinais antagónicos, quase uma esquizofrenia social, quando aparecem as campanhas oficiais de incentivo à natalidade… quando lhes dizem engravidem, engravidem que não estão a ser repostas as gerações e a população portuguesa está muito envelhecida. Mas depois, ao mesmo tempo, dizem-lhes, estudem, trabalhem, progridam na carreira. E depois outra vez: mas engravidem depressa, quanto antes, olhem o vosso relógio biológico… E depois ainda dizem, mais como é possível? não amamentam durante no mínimo um ano o filho, mas se o está provado cientificamente que o leite materno é fundamental para os vossos filhos… É, pois é. E depois, logo a seguir os patrões, ainda noutro dia um alto responsável, a falar dos graus de absentismo das mulheres, a dar primazia aos empregados homens porque elas têm direito a um direito (desculpem a redundância) que é o de serem mães, que é o de amamentar os filhos, que é o de passarem tempo de qualidade com as crianças, e lá vem outra pressão. Ainda noutro dia, na AutoEuropa, a quantidade de pessoas que não compreendiam que os trabalhadores tivessem direito ao descanso (o chamado direito irrenunciável), mas não compreendiam, inclusive que os pais tivessem o direito de passar o sábado com as crianças. Eu pergunto se não percebem, mesmo aqueles que tanto gastam e sacralizam a palavra «família» nos seus discursos, como a célula da sociedade, etc… que não entendam que ver os filhos crescer é um direito, ao menos que compreendam o direito das crianças. O direito básico das crianças a estar com ambos os pais, o direito das crianças a terem infância.
E todos aqueles que possam pensar que isto é uma questão do poder central, de fazer respeitar o famoso artigo 13º da Constituição, o da igualdade, aquele pelo qual tantos se bateram, tantos deram a vida… se esses vierem dizer que isso é um assunto que não cabe às autarquias eu desafio, então tentem andar de carrinho de bebé, nas carruagens de metro à hora de ponta, façam este exercício, subir e descer escadas, nas estações onde não há elevador, tentem depois enfiar o carrinho num autocarro, e passar horas… isto também conta como tempo de qualidade com a mãe? Ou então de carro, tentem ficar parados no trânsito, enquanto um bebé chora de fome ou desconforto no banco de trás, tentem, já agora, amamentar enquanto conduzem… E senão tu, mãe, mulher não conseguires, chegar à creche a horas, ou tiveres turnos para cumprir ou trabalhares na Autoeuropa e te conseguirem mesmo tirar o direito ao sábado, não faz mal, a criança vai para os avós, mas espera… entretanto com o preço da habitação os avós estão longe, porque tiveste que te mudar para um concelho limítrofe onde as rendas e os preços de habitação são mais decentes… E então, quebra-se a teia familiar, quebra-se a instituição avós que é tão relevante, também dizem os estudos, já que a teia social dos bairros vai sendo destruída de forma predadora e intencional, pelos interesses mobiliários e especulativos.
É esta violência que a cidade de Lisboa tem para oferecer às mulheres, e às crianças?
No governo anterior, os terríveis anos da troika, durante a regência CDS/PSD, o período também conhecido como um dos maiores roubos autorizados da história, com a cumplicidade de um presidente, que cometia inconstitucionalidade atrás de inconstitucionalidade…. O próprio presidente, a esta curta distância até custa a acreditar. E todos os atentados que se abateram sobre os trabalhadores… como se imagina a condição das mulheres tornou-as mais vulneráveis, convidadas a emigrar, a ter duplo emprego, a afastarem-se dos filhos e das famílias, a adiar o desejo de engravidar. Debaixo de ainda mais pressões, até o direito ao aborto referendado, aproveitaram para condicionar, impor restrições, chantagens, humilhações… Muitos destes direitos foram reconquistados, e a intervenção do PCP foi decisiva, nomeadamente, a reposição das 35 horas semanais e do subsídio de Natal, dos feriados, as eliminações dos cortes de salários, aumento das reformas, o alargamento da gratuitidade dos manuais escolares… Muitos continuam por repor. Mas há coisas que quando se destroem, levam muito tempo a reconstruir. É que atraso no campo dos direitos laborais e dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos em geral, foi acompanhado de um atraso civilizacional, e os anos de crise dão sempre terreno muito fértil para germinarem as ideias obscurantistas, e todos os preconceitos, as descriminações, a violência doméstica, tantas vezes fatal para a mulher… Mulheres aqui em Lisboa que eu conheci, que viveram uma vida inteira a serem torturadas, escravas dentro de casa, sem vontade própria, destituídas de auto-estima, tão frágeis, reféns do medo, sequestradas no seu próprio isolamento, no pânico de defender os filhos… uma realidade tão dura como eu só encontrei nos abrigos de prostitutas, mulheres que não sabiam já o que era serem donas de si próprias, que pediam autorização para vestir um casaco se estava frio, ou perguntavam se podiam ir à casa de banho, perdidas de si mesmas… e para a CDU a prostituição nunca é opção, é desespero. E é uma realidade trágica e terrivelmente dura.
E até novas formas de violência, em que a mulher é a principal vítima, como a violência no namoro, que preocupa muito os psicólogos, porque são mulheres crianças, miúdas em idade escolar que se entregam a namoros sádicos, controladores, altamente arriscados, situações de ciberbullyng, controlo, ciúme, cibersexing, ciberstalking entre namorados… e calcula-se o risco destes comportamentos se prolongarem para a idade adulta. Mas em adolescentes, num período que todos sabemos ser de alta perigosidade, alta vulnerabilidade, de exarcebamento de todas as emoções… e muitas têm assim a primeira experiência daquilo que chamam falsamente amor, baralham paixão com agressão, muitas vezes com a complacência das famílias, pressionadas, também elas, para que as filhas casem, saiam de casa, tenham relações sexuais precocemente… Porque tudo tem de ser urgente, e entramos numa espiral, que tem obviamente consequências, e as mulheres, como é fácil de adivinhar são as primeiras vítimas… No caso do Estado, que a tudo assiste sem intervir, a isto chama-se cumplicidade.
Considero a luta pela igualdade de direitos justa e imprescindível. Enquanto existirem mulheres violentadas, discriminadas laboral e socialmente, vitimas de tráfico sexual, empurradas para a prostituição ou impedidas por qualquer outra forma à dignidade a que têm direito, esta será uma luta justa e imprescindível. Estarei na manifestação nacional de mulheres, convicta de que esta é uma causa que exige o contributo de todo
Cristina Cruzeiro Investigadora e professora universitária