questionamento da comunidade científica e intelectual exigindo um novo fôlego de activismo em torno da relevância dos direitos das mulheres, como matéria em aberto, mas indissociável do progresso da humanidade;
3. Um crescendo de acções em prol da paz e dos direitos humanos, hoje tão ameaçados pelas mesmas forças que desde a 2ª Guerra Mundial, não desistiram de semear bombas, de promover a corrida aos armamentos, de acender novos “monstros de guerra”, gerando o pânico e o medo, provocando a morte a milhões de seres humanos hoje deslocados ou refugiados por força da guerra e da fome. Maria Lamas, mulher da palavra inconformada e comprometida, a sua abrangência intelectual e política atravessou fronteiras geográficas e culturais, tendo deixado um enorme legado de publicações com marcos que perduram no tempo, em defesa dos valores da dignidade das mulheres e dos oprimidos, da paz, da civilização e progresso, da dignificação do género humano.
Maria Lamas distinguiu-se perante as mulheres e o povo português, na sua trajectória de luta, acompanhada por muitas outras. Foi na verdade um exemplo de ética que queremos que perdure nos nossos corações e na nossa razão de vida pessoal e como um movimento voltado para o mundo.
Já no fim da sua vida, muito lúcida, sempre preocupada com o amor e a felicidade humana, Maria Lamas tomava partido: “Povos felizes são povos que têm trabalho garantido, que não têm fome, que não sofrem perseguições, que desfrutam de uma vida pacífica”.
Foi de facto uma mãe-coragem!
Pelo que, declaramos que a sua obra – infantil e autorreferencial – plena de ensinamentos mas esgotada merece ser reeditada por quem de direito e boa vontade e deve ser lida nas bibliotecas dos municípios e das escolas; deve ser estudada na comunidade científica na universalidade das suas temáticas que hoje já têm um merecido estatuto científico.
As mulheres do meu País e a Mulher no mundo são inequivocamente fundamentais como obras pioneiras para a história das mulheres e dos seus movimentos transformadores ao longo dos séculos.
Se o século XX foi o Século das Mulheres e das suas grandes conquistas, Maria Lamas trouxe até nós, desde os anos 30, um inegável contributo. Quanto a nós, MDM, colaboraremos com todos os que vão progressivamente mostrando interesse nesta figura ímpar e já secular e pomos à disposição o arquivo digital Maria Lamas, onde desocultamos parte da sua memória e do espólio que entre nós se foi construindo.
A atribuição da Honra de figurar no Panteão Nacional, proposta levada pelo Conselho Nacional do MDM à Assembleia da República no 120º aniversário do seu nascimento e pela qual lutaremos em conjugação com os sentires deste 2º Congresso, pode ser uma importante e justa homenagem que ainda falta mas também será um momento alto para revitalizar o pensamento e a obra de Maria Lamas junto das comunidades para quem se dirigiu, um tributo à luta milenar das mulheres que ela tão bem descreveu e relatou. Um grande momento para darmos sentido actual às suas palavras em prol de uma cultura democrática e de liberdade, interpretadas na relação com os tempos difíceis que viveu, convivendo com os sentimentos e cumplicidades, com a ternura dos seus gestos individuais e colectivos de que somos herdeiras.
Tal honra, seria um tributo, a todas a mulheres de hoje “sobre as quais pesam tantas injustiças, ignominias e amarguras”4 dispostas como ela a agirem e a lutarem “Por uma nova manhã, mais luminosa e de maior esplendor”, segundo as suas belas palavras no Despertar de Silvia.
Almada, 12 de Dezembro de 2015