Regina Marques
Trata-se de um contributo do MDM para a evocação da memória de mulheres que resistiram ao fascismo por Abril e participaram na sua construção. Foram mulheres que escreveram a Constituição e as páginas mais exaltantes da nossa história. Estiveram com a Revolução em defesa dos direitos das mulheres. Mulheres que viveram a prisão. Foram silenciadas, caladas, maltratadas. Humilhadas sob o fascismo. Foram mulheres que cantaram literalmente a liberdade. “As presas nunca foram simples sujeitos de sofrimento, ao contrário, aparecem como pessoas com vontade e capacidade de compreender o que acontecia à sua volta e responder a esse ambiente com os meios e as atitudes que consideravam oportunas… Para muitas significou uma aprendizagem muito dura sobre a qual assentaram e consolidaram convicções, e através destas, a sua identidade. Precisamente aquelas por que tinham sido capturadas e presas”.
Muitas destas mulheres, inseridas nos seus colectivos e organizações, inscreveram na história das mulheres a luta pela melhoria das condições de vida e pela dignidade. Estiveram no Governo, na Assembleia da República, nas Autarquias.
Todas abraçaram valores de Abril com diversas experiências e matizes pela dignificação das mulheres, pela igualdade de direitos, por uma cultura de igualdade e de cidadania. Nelas, descobrimos traços de vida que perduram nas áreas da politica, da cultura, do social com uma projecção pública que valoriza o património de luta pelos direitos das mulheres portuguesas e, consequentemente, o MDM.
Poderiam aqui estar muitas outras. Estas são parte de uma história do MDM e de uma Distinção de Honra que, ao longo de 20 anos, o Conselho Nacional do MDM decidiu atribuir-lhes, individualmente ou em grupo.
Estiveram ligadas a grandes avanços do 25 Abril e com uma trajectória de vida que mereceu o reconhecimento de vários segmentos de mulheres e de largos sectores da opinião pública. São figuras marcantes que se projectam na sociedade de hoje através da sua obra como propulsoras dos valores nascidos com Abril, nos seus diversos matizes e campos de acção, que em alguns momentos acompanharam, tiveram ou têm ligação com o percurso do MDM de mais de 40 anos.
São mulheres que foram, as primeiras, a caminhar por mundos desconhecidos. Na medicina, ou na arquitectura, na justiça ou no direito, seguiram o fascínio das cidades novas e o sopro da inovação na arte de fazer nascer e dar à luz.
Criaram poemas e contos e histórias de mulheres num Abril novo, Foram capazes de nos dar o prazer da leitura em cada momento da vida. Deixaram fragmentos de sonhos vividos, desesperados, encravados na nossa história colectiva.
Foram mulheres que sonharam com a perfeição do universo e com a humanização das cidades. Construíram o poder local democrático. Fizeram cidades de duas margens. Construíram cidades harmoniosas, plenas de vida própria e deram vida a gente que é gente e quis ser gente.
Afinal, são todas, mulheres que souberam transformar o sonho em matéria viva. Matéria feita da música, do cinema, do teatro, da poesia, da literatura, da ciência, das artes plásticas, da política. Matéria que foi luta e muito trabalho.
Elas, à sua maneira e na sua especificidade, lutaram por si, por nós, por causas nobres e justas.
Mulheres que não vergaram sob o fascismo. Que não vergaram na defesa da cultura.
Que não cederam a desígnios confessos de subalternidade. Não soçobraram perante as grandes adversidades. Mulheres que ergueram movimentos que estão de pé ou com eles deram passos de solidariedade. Por linhas sinuosas e rebeldes mas certeiras, confiaram nos movimentos e organizações, verdadeiras fontes de vida, que deram mais vida à vida efémera e dura que o fascismo contaminou.
Com a sua experiência teceram as malhas finas da solidariedade feminina e humana.
Teceram nos teares das fábricas a alegria de ser mulher, a trama de uma organização que perdura no tempo. Formaram sindicatos e cooperativas, fizeram greves e manifestações. Tiveram salários em atraso. Dormiram nas fábricas para guardar as máquinas. Mulheres sem sono. Mulheres de sempre.
Mulheres que fizeram da arte, a denúncia, o grito de sobressalto, o cenário da revolta.
Muitas, cavaram e sulcaram a terra. Da aridez fizeram trigo. Cantaram com tons vermelhos a alegria do amanhã. Do seu corpo sangraram papoilas e lírios que encheram os campos.
Lutaram por uma economia sustentável para um país que escreveu uma Constituição que abriu novos horizontes para Portugal, para os povos de língua portuguesa em África. São mulheres que lutaram lado a lado com muitas outras ávidas da sua independência e soberania nacional, sedentas de liberdade e progresso.
Orgulhosas que foram com a liberdade, a democracia, a descolonização e a participação popular, souberam dar as mãos e foram pioneiras na luta pela paz.
São individualidades que continuam ocultadas, nesta sua dimensão de mulheres de Abril, de mulheres que ocuparam lugares e tempos imprescindíveis na construção das ideias e dos mundos de igualdade e afirmação das mulheres, que hoje como ontem estão ameaçados e num inequívoco retrocesso.
Neste painel de mulheres de Abril, individualmente ou em colectivo, espelha-se a transversalidade da luta feminista e feminina feita de muita participação e acção multifacetada, de décadas, por conquistas históricas, ao longo de uma história de que não nos podemos privar enquanto mulheres e seres humanos. Procurámos não perder a singularidade de cada uma delas e, ao contrário, enfatizar os seus saberes e experiências únicas, no contexto em que elas actuam ou actuaram. São para nós mulheres singulares.
São nomes inesquecíveis de sublime dimensão humana que ficarão célebres entre nós.
Sem dúvida, célebres.
Porque amplamente reconhecidas pelos seus pares e pela sociedade.
Mulheres contagiantes para o nosso convívio intelectual e moral, para a nossa luta continuada e exigente, para um equilibrado dimensionamento dos papéis das mulheres em todas as esferas da vida.
A sua memória e o seu exemplo continuam a povoar o nosso quotidiano, com traços, linhas e pontos convergentes. A povoar o nosso imaginário colectivo.
São Mulheres de Abril. Mulheres de Sempre.
O Movimento Democrático de Mulheres (MDM) é uma associação de mulheres, fundada em 1968.