DIA INTERNACIONAL DA MULHER

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Uma data marcante na construção da emancipação das mulheres.

Foi ao longo dos anos uma data para as nossas reivindicações nas ruas e junto dos Governos ou da Assembleia da República.
É uma data de Solidariedades mundiais, pelo Progresso Social e a Paz no Mundo.
Celebrar o Dia Internacional da Mulher é, para nós, afirmar a vontade e a determinação de Ser Mulher, com voz e razão próprias, com direitos e deveres de cidadania, porque a celebração retoma a história, revitaliza processos e redobra o ânimo no nosso combate pelo direito ao trabalho, à autonomia e realização pessoal.
O 8 de Março é tempo de mulheres porque perdura no tempo. As comemorações são pretexto para acções que se prolongam ao longo do mês e dos meses.
É um tempo para a mobilização da inteligência, dos afectos, dos talentos femininos, para a evocação das ousadia daquelas que ao longo dos anos e em todas as épocas foram tecendo a memória colectiva da emancipação das mulheres.

UM SÉCULO DE LUZES E DE SOMBRAS

Em 1910, Clara Zetkin (1857-1933), revolucionária alemã, defensora das causas das mulheres, propõe numa Conferência Internacional realizada em Copenhaga a celebração de um Dia Internacional da Mulher Trabalhadora.

Clara Zetkin ao propor este Dia Internacional lembra as lutas das sufragistas pelo direito de voto e a luta das operárias têxteis pela redução do horário de trabalho e por condições dignas, lutas vindas do Séc. XIX e que, no início do Séc. XX, desencadearam na Europa e nos EUA as maiores ofensivas e repressões policiais. A luta emancipadora das mulheres trabalhadoras e a luta pelo sufrágio universal era então o grande objectivo desta celebração.

Em 1911, é celebrado pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher, reunindo milhares de mulheres que percorreram as ruas em manifestações na Alemanha, Suíça, Áustria, Dinamarca, Suécia e EUA.

Em Portugal, em 1900, a população activa feminina representava cerca de 29% na indústria.

Numa economia atrasada, os trabalhadores industriais, particularmente as mulheres, são os que mais sentem a exploração. Nas últimas décadas da monarquia há já alguma visibilidade do papel das mulheres na luta operária: nas greves dos manipuladores de tabaco, no Porto, em 1887 e de 1899; na das costureiras de 1892, em Lisboa; na das vendedoras ambulantes de Coimbra de 1903, nas conserveiras de 1908, nas das conserveiras em 1910 ou ainda na CUF no Barreiro.

Com a implantação da República, em 1910, surgem as primeiras organizações de mulheres que lutam pelos direitos das mulheres ao trabalho, à educação e instrução, pelo direito de voto, pela sua dignificação.

Em 1914, é criado o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas que é mandado encerrar pelo Governo Civil de Lisboa, em 1947. À data Maria Lamas era a sua Presidente.

A partir da proclamação do Dia Internacional, por todo o mundo cresceram as movimentações de mulheres. Em Fevereiro de 1917 as operárias de Petrogrado, na Rússia, organizaram manifestações, greves e acções de protesto. Esta comemoração era um sinal da importância que as mulheres iriam ter na Revolução de Outubro. Em 1928 realiza-se a primeira manifestação do Dia Internacional da Mulher na Austrália. Também na comemoração deste dia em 1936, Dolores Ibárruri encabeçou uma manifestação de 200.000 mulheres contra a ameaça fascista.

Em Maio de 1945, em todo o mundo, as mulheres encabeçaram as manifestações que saudaram as forças de coligação que derrotaram o nazi-fascismo. Em Dezembro de 1945 nasceria a Federação Democrática Internacional de Mulheres, na defesa dos direitos das mulheres, das causas independentes dos povos, nas acções a favor da paz. Foi fundada, em Nova Iorque, o Congresso das Mulheres Americanas, no 8 de Março de 1946. A Declaração Universal dos Direitos do Homem é aprovada na ONU, em 1948, sendo o 8 de Março vivido como um dia de glória pelas mulheres. A 8 de Março de 1950, é criado o Congresso das Mulheres Canadianas que agrupa várias organizações de mulheres.

Em Portugal instala-se a ditadura militar em 1926, que liquida as liberdades e as  organizações operárias e democráticas que começavam a despontar, suprimindo as transformações progressistas que se tinham enformado.

A luta das mulheres volta a animar-se com a sua participação em estruturas antifascistas. Nas greves das operárias conserveiras e têxteis, nos campos do Alentejo e Ribatejo, milhares de mulheres manifestam-se pelo aumento dos salários, pela jornada das 8 horas, pela semana inglesa, pelo descanso semanal. Protestam contra o aumento do custo de vida, a situação dos presos políticos e a guerra colonial.

As mulheres portuguesas participam, resistem e lutam…

O Dia Internacional da Mulher em Portugal foi assinalado durante os quase 50 anos da ditadura fascista, sempre ligado à luta pela democracia, pela liberdade e pela paz. Em 1953 há notícia de celebrações com uma reunião de mulheres, em Lisboa, e a 8 de Março de 1962 dá-se a primeira manifestação, no Porto, em que cerca de 20.000 pessoas protestam contra a guerra colonial, o aumento do custo de vida e a falta de liberdades.

O MDM, criado em 1968, comemora o Dia Internacional da Mulher pela primeira vez em 1969, numa situação de semi-clandestinidade, como impunha o regime ditatorial fascista, associando-se a muitas destas reivindicações.

Em 1970 mobiliza um significativo número de mulheres para um piquenique na Serra de Sintra que culminou com a dispersão pelas forças da GNR com ameaças de prisão. Nos anos seguintes sucedem-se os colóquios, comunicações e convívios sendo o 8 de Março de 1974 assinalado pelo MDM com um comunicado saudando todos os presos políticos pela sua luta e exigindo a sua libertação.

A contribuição das mulheres com a sua acção e luta foi decisiva para o derrube da ditadura.

Com o 25 de Abril de 1974 foram abolidas situações humilhantes para as mulheres portuguesas, que conquistaram importantes direitos cívicos, políticos, sociais e económicos com repercussões importantes na sua qualidade de vida e no seu estatuto como cidadãs e trabalhadoras.

Mas a Revolução também significou para as mulheres a possibilidade de intervir, a liberdade de estar e participar na vida activa, social e política.

Com a sua voz e o seu gesto deram cor a toda a movimentação popular que se soltou nas ruas, nas empresas, nos campos, nas escolas, nos sindicatos, na vida cultural.

A Constituição da República de 1976 consagrou importantes avanços que transformaram radicalmente o estatuto legal das mulheres na sociedade e na família, que a reforma do Código Civil de 1978 veio reiterar.

Por isso o MDM sempre fez destes instrumentos referências importantes da luta emancipadoras das mulheres.

Dia Internacional da Mulher contra o fascismo e pela paz

O MDM, na primeira comemoração do Dia Internacional da Mulher em liberdade, em 1975, afirmava: “saímos da noite fascista para a manhã da liberdade”, numa clara homenagem também à conquista da liberdade de expressão.

Em 1976, “Pela Paz e pelo Desarmamento” é o mote para muitas celebrações por todo o país, num ano em que o MDM recebe numerosas delegações estrangeiras. No ano seguinte, mantém-se a solidariedade com a luta dos povos oprimidos e, para 1978, Portugal, ligava-se no 8 de Março “Pelo direito à vida, pela liberdade e pela paz”, que se manteria por 1978, com a realização de uma exposição de fotografia de livros e artes plásticas na Sociedade Nacional de Belas Artes.

Em 1979, profundamente ligada à situação política do país e do mundo, a comemoração do 8 de Março teve como lema “Damos as mãos pela Paz, pela nossa emancipação em defesa da Constituição, em defesa de Abril”, aliada à referência ao Ano Internacional da Criança.

Hertta Kuusinen, a segunda presidente da Federação Democrática Internacional de Mulheres, propôs em 1972 à Comissão para o Estatuto das Mulheres que a ONU proclamasse um Ano Internacional no sentido de colocar na agenda a situação e as necessidades específicas das mulheres. A Assembleia Geral viria a proclamar o ano de 1975 e foi essa primeira vez que a ONU celebrou o 8 de Março, tendo o Secretário-Geral emitido uma declaração focando a Década da ONU para a Mulher (1975-1985), entretanto decidida, e os seus objetivos de Igualdade, Desenvolvimento e Paz.

Em 1977, a Assembleia Geral viria a convidar “todos os Estados a proclamar, de acordo com os costumes históricos e nacionais, o Dia das Nações Unidas pelos Direitos das Mulheres e pela Paz Internacional”. A partir de 1995 a ONU passa a assinalar o Dia Internacional da Mulher com um tema específico.

Estas decisões, aliadas a décadas de comemorações por muitas organizações, revelaram ter grande repercussão na disseminação dos direitos das mulheres em todo o mundo.

O MDM persistiu em saudar as mulheres, a sua capacidade de intervenção na sociedade, a sua capacidade de resistência e luta, a sua capacidade de solidariedade com as causas justas das outras mulheres em todo o mundo. A acção foi palavra de ordem num Movimento que se ampliou e propagou na defesa da emancipação da mulher e da elevação das suas condições de vida e de trabalho.

Dinamizando reuniões, comícios, convívios, debates, exposições, o MDM divulgou o trabalho, a arte e o contributo das mulheres, denunciou discriminações e violências mas também impulsionou a participação de muitos milhares de mulheres em todo o país. Acompanhando o contexto político, económico e social do país traçou um rumo de exigência de atenção para os problemas específicos e concretos das mulheres. Mas também localmente procurou identificar e acompanhar as necessidades próprias das mulheres e o encontrar de soluções.

Ao longo dos anos, as comemorações em Portugal foram-se estendendo a outras organizações sociais e entidades que compreenderam a importância de assinalar o Dia Internacional da Mulher e se associaram de muitas formas à grande festa das mulheres, na defesa dos seus direitos e na exigência da concretização das suas aspirações.

Esta ampliação do 8 de Março espelha-se nas mais diversas iniciativas, documentos e acções. Um postal, um folheto, um monumento, um nome com rua de mulher… Muitas foram as formas encontradas por sindicatos, autarquias, associações, colectividades, comissões de moradores, de homenagear as mulheres que ao longo de décadas lutaram por melhores condições de vida e de trabalho mas também para reafirmar, em cada ano, a necessidade de defender essas conquistas e persistir na batalha pela igualdade.

O papel pioneiro do MDM na defesa de causas que influem no quotidiano das mulheres também se reflectiu em muitas comemorações do 8 de Março.
Ao longo dos anos, são momentos em que se reafirma a defesa da Paz e da Igualdade, a Constituição da República e as conquistas de Abril, a Solidariedade com as mulheres do mundo.

Ao contactar milhares de mulheres a propósito do Dia Internacional da Mulher — no contacto directo nas ruas, através de documentos, do direito de antena na televisão, nas rádios ou na internet — o MDM dirige-se às portuguesas abordando os temas da mulher no mundo do trabalho, a participação política, a melhoria das condições de vida, a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos, as condições para o exercício da maternidade, a violência, a prática desportiva, o associativismo, a produção e fruição cultural, a educação, a ecologia, a ciência, entre tantos outros.

Com propostas, reivindicações, denúncias, reflexões, manifestações, exposições contribuiu-se para o avanço de toda a sociedade.

O 8 de Março é um momento de expressão, em que se dá voz às aspirações das mulheres, se contestam as políticas penalizadoras do país e se exigem soluções para os problemas mais candentes.
Como movimento nacional que é, o MDM sempre procurou que as celebrações do Dia Internacional da Mulher fossem eco dessa expressão em todo o país, através dos seus núcleos, das suas dirigentes, das suas activistas, de centenas e centenas de mulheres que, anualmente, comemoram e lutam.

Na década de 90 muitos foram os temas que agregaram as mulheres: contra a invasão do Iraque e na defesa da paz, a participação política e a família, a melhoria das condições de vida e a igualdade entre homens e mulheres, entre tantos outros. No 5.º Congresso, em 1996, o MDM viria a decidir uma grande manifestação nacional para o 8 de Março do ano seguinte, convidando a CGTP-IN e outras organizações para a comissão promotora. Milhares de mulheres de todo o país desceram a Avenida da Liberdade, em Lisboa, numa grande jornada feminina de alegria e de intervenção cívica, que assinalava, pela primeira vez, a celebração de uma manifestação que seria a primeira manifestação nacional de mulheres.

Na viragem do milénio, o MDM permanece junto das mulheres portuguesas, fiel à sua história de luta como movimento.

Em cada 8 de Março o MDM dirige uma palavra de alegria e de confiança e um gesto solidário a todas aquelas que lutam pelos seus direitos laborais, que se revoltam com o desumano encerramento de empresas, de maternidades e urgências no Serviço Nacional de Saúde. A todas as que nos seus países enfrentam a ocupação e a opressão, a fome e a doença, a violência e a guerra.

Mas já no século XXI, a pesar de todos estes retrocessos nos direitos, foi também possível assistir, participar e contribuir para avanços e conquistas para as mulheres, nas mais variadas áreas da vida. Em Portugal, o 8 de Março de 2007 foi comemorado em festa quando a despenalização da interrupção voluntária da gravidez venceu. Depois de décadas de oportunidades perdidas, em que o MDM sempre lutou ao lado das mulheres, esse grande avanço civilizacional foi conseguido.

Com empenho e lealdade, o Movimento Democrático de Mulheres persiste na enunciação da importante raiz histórica do Dia Internacional da Mulher juntando-a à incontornável exigência de uma vida melhor para todas.

O MDM evoca o centenário desta data como razão da luta emancipadora das mulheres. Há cem anos atrás, as mulheres viviam em desigualdade. Actualmente, há desigualdades que ainda persistem mas o longo caminho percorrido foi palco de vitórias e conquistas obtidas pela participação activa e a tenacidade de milhões de mulheres em Portugal e em todo o mundo. O Dia Internacional da Mulher é uma jornada de homenagem às mulheres que, antes de nós, percorreram este caminho e àquelas que, hoje, têm direitos a defender e barreiras a ultrapassar.

Depois de um século de luzes e de sombras, de extraordinários avanços mas também de retrocessos, o presente e o quotidiano interpelam-nos e exigem uma mobilização forte das mulheres. A garantia da participação das mulheres em igualdade em todas as áreas da sociedade é condição essencial de progresso para o qual concorre o reforço das organizações de mulheres.

8 de Março é uma data em que trazemos à memória tantas mulheres… Tantas manifestações colectivas ou singulares que são parte da história do MDM e das mulheres portuguesas.

Na senda de Clara Zetkin, vale a pena comemorar este Dia, actualizando as perspectivas das mulheres e atraindo-as para, com o MDM, percorrerem novos caminhos para a transformação da sociedade.

Viva o 8 de Março!

Um olhar sobre o DIM

Temas Relacionados

O Dia Internacional da Mulher, desde que emergiu no horizonte das lutas feministas foi para propor uma ruptura com as velhas e retrógradas ideias sobre as mulheres e propor o seu digno e justo lugar na sociedade.

Em Portugal, há datas que não podemos esquecer porque não foi fácil. Não era fácil juntar as mulheres quando o direito de reunião e manifestação era proibido e as prisões políticas eram uma ameaça permanente por pouco que fosse.

1962 – No Porto, milhares de pessoas protestam contra a guerra colonial, contra o aumento do custo de vida e contra a falta de liberdades.

1970 – O MDM mobiliza um significativo número de mulheres para um pic-nic na Serra de Sintra que culminou com a dispersão pelas forças da GNR com ameaças de prisão. 

1971 – No Porto, 150 pessoas participam num colóquio sobre “assistência materno-infantil e democratização do ensino” em comemoração do DIM. Seiscentas operárias da Fábrica Barros em Lisboa realizam uma concentração junto da gerência, reivindicando aumento de salário. Também nesse ano se realizou um Colóquio seguido de jantar em Moscavide (200 pessoas), onde se discutiram os problemas das mulheres, um outro Colóquio em Torres Vedras (150 pessoas) sobre a temática relacionada com as mulheres trabalhadoras e um Colóquio em Santarém com 200 pessoas.

1972 – As mulheres democratas de Coimbra promovem um convívio com cerca de 300 mulheres e distribuem comunicados nos mercados da cidade. O MDM promove convívio em Lisboa. Realizam-se Colóquios em Queluz e Sacavém para comemorar o 8 de Março.

1973 – O MDM dirige um comunicado às mulheres do Concelho de Águeda, incitando-as à luta dos seus direitos. As operárias agrícolas e outras trabalhadoras ousam comemorar o DIM com uma saudação geral. Realiza-se um Colóquio no Sindicato dos Bancários (Lisboa) sobre a situação da mulher portuguesa, uma sessão de vídeo do MDM em Coimbra, discurso de protesta contra a guerra colonial e libertação dos povos colonizados e o direito à autodeterminação, direitos humanos e direitos das mulheres.

1974 – O MDM emite um comunicado saudando todos os presos políticos pela sua luta e exigindo a sua libertação.

Em 8 Março de 1975
É a primeira comemoração do Dia Internacional da Mulher em Liberdade e Democracia. O MDM realiza pela primeira vez uma Conferência de Imprensa a 28 de Fevereiro para anunciar as comemorações, homenageando também a conquista da liberdade de expressão. E desde então segue, anualmente, terra a terra comemorando, reivindicando e agindo.