MULHERES DE ABRIL
Maria Conceição Vassalo e Silva (Maria Lamas) nasce em Torres Novas, em 6 de Outubro de 1893 e morre aos 90 anos no dia 6 de Dezembro de 1983.
Escritora, jornalista e conferencista
Ex-libris de Maria Lamas: Sempre Mais Alto “... Até onde eu puder.” Maria Lamas – uma mulher a figurar no Panteão Nacional
Escritora, jornalista e conferencista, Maria Conceição Vassalo e Silva (Maria Lamas) nasce em Torres Novas, em 6 de Outubro de 1893 e morre aos 90 anos no dia 6 de Dezembro de 1983. Primeira filha de Maria da Encarnação Vassalo e de Manuel Caetano da Silva.
Em 1906, entra como aluna interna para o Colégio das Teresianas de Jesus, Maria e José, em torres Novas e sai no fim do ano lectivo em 1908. Casa muito jovem em Março de 1911 com o tenente de cavalaria, Teófilo José Ribeiro da Fonseca. Vive com ele em Angola até Março de 1913. No regresso de Angola a Portugal, começa a escrever em publicações locais. Usa os pseudónimos: Maria Fonseca ou Serrana d’Ayre. Os seus temas são então a guerra e a defesa da paz. Divorcia-se em 1919, com 25 anos, ficando com duas filhas a seu cargo.
Em 1920 vai trabalhar para a Agência Americana de Notícias onde conhece o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, com quem casa em Abril de 1921. Deste segundo casamento nasce a filha Maria Cândida em Maio de 1922. Com o pseudónimo de Rosa Silvestre, publica, em 1923, o seu primeiro livro, único de poesia, Humildes, a que se segue o mesmo ano o romance Diferença de Raças.
Em 1925, começa a colaborar em revistas e publicações infantis, Nomeadamente em O Pintainho com o pseudónimo de Rosa Silvestre e em suplementos infantis de vários jornais. Publica vários contos infantis: Maria Cotovia (1925), Aventuras de Cinco Irmãozinhos (1931), A Montanha Maravilhosa (1933) e ainda as novelas infantis Estrela do Norte (1934), Os Brincos de Cerejas (1935). Em 1942, dedica a sua neta Maria Leonor, a novela infantil O Vale dos Encantos, sobre a qual o crítico literário João Gaspar Simões tece a seguinte opinião “É assim mesmo que se escrevem romances: com factos, com simplicidade de linguagem e com fluência narrativa. Maria Lamas escreveu, parece-me, o seu melhor livro”2. 2 Diário de Lisboa, “Os Livros da Semana”, 18 de Fevereiro, 1943, p. 11.
Na Revista Infantil A Joaninha, editada em 1936, publica em folhetim o romance O Relicário Perdido. O primeiro trabalho que assina com o nome de Maria Lamas foi o romance Para Além do Amor (1935), reeditado em 2002. Escreve ainda o romance A Ilha Verde (1938). Faz da reportagem uma importante vertente da sua acção jornalística, nomeadamente com o Cruzeiro pelo Mediterrâneo, nos anos 30, e também outras sobre Gibraltar, Marrocos, Argélia ou Madeira, publicadas em vários jornais da época. A sua obra de maior envergadura jornalística é, sem dúvida, a grande reportagem que nos aparece em As Mulheres do meu País, publicada em fascículos para fugir à censura, tendo saído o primeiro número em Maio de 1948 e, o último em Maio de 1950.
Depressa esgotada só é reeditada pela editorial Caminho em 2002, com uma notável edição, prefaciada por três das suas netas e com uma apurada biografia feita pela sua filha Maria Cândida Caeiro. Em 1952, inicia a Publicação de A Mulher no Mundo, outra obra de ímpar valor histórico para a compreensão da evolução dos papéis e lugares das mulheres no mundo,
investigação na qual trabalha durante 20 anos. Escreve ainda O Mundo dos Deuses e dos Heróis, Mitologia Geral, publicado a partir de 1960 também por fascículos. Entretanto, na mesma época, faz traduções de grandes autores como Victor Hugo, Marguerite Yourcenar, entre outros. Como jornalista é na redacção de O Século, em Abril de 1929, que dá os primeiros passos e, pouco tempo depois, integra a direcção do seu suplemento Modas e Bordados.
Surge como sua directora, no número de 3 de Agosto de 1938, o que faz com enorme sucesso até 1947. No quadro das suas funções em O Século organiza em 1930 a Exposição da obra feminina antiga e moderna, de carácter literário, artístico e científico que integra também uma Exposição de tapetes feitos pelas presas da Cadeia das Mónicas. É reconhecido o seu mérito com a atribuição da medalha honorífica da Ordem Sant’Iago da Espada em 1 de Agosto de 1934, pelo Presidente da República Óscar Carmona.
Ainda no Século, em 1936, organiza uma Exposição sobre a Ilha de S.Miguel. Em 1947, como Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas organiza a Exposição de Livros Escritos por Mulheres na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, acompanhada de uma série de Conferências. A sua grande repercussão nacional e mundial desagrada ao regime fascista. O desagrado é tal que o Governo Civil de Lisboa manda encerrar o Conselho e ao mesmo tempo afasta Maria Lamas do jornal, ficando assim desempregada e sem ganha-pão. É nessa altura que parte para aquela que será a sua maior reportagem escrita em As Mulheres do meu País. Só em 1975, é reparada tal injustiça, ao ser convidada por Maria Antónia Fiadeiro, então chefe de redacção de Mulher Modas e Bordados, para directora honorária da Revista onde trabalhou mais de 20 anos e de onde fora obrigada a sair pela censura fascista.
Mulher da palavra inconformada e comprometida A luta pelos direitos das Mulheres e pela sua dignificação e a causa da Paz são as traves mestras do seu ardente trabalho político no qual transparece sempre a força da ternura, da solidariedade e o amor sublime pela Humanidade, bem expressos em toda a sua obra, seja na escrita para crianças, seja no romance ou na grande reportagem sobre as vidas das mulheres portuguesas. Destaca-se na política integrando as organizações democráticas opositoras ao Estado Novo e à ditadura.
Assina as listas de formação do MUD juvenil que considera ser o seu primeiro acto político. Integra, no mesmo ano de 1945, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, no qual vem a assumir a Presidência da Direcção, em 1946. No MUD ocupa também cargos de direcção. Tem uma actividade internacional de grande prestígio.
Participa no Congresso fundador da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM) em 1946 e representa muitas vezes as mulheres portuguesas nos Congressos da FDIM, realizados no estrangeiro, em Congressos Mundiais de Mulheres e ainda, nos Congressos Mundiais da Paz. No ano de 1975, faz a sua última viagem ao estrangeiro, para participar como convidada de honra, no VII Congresso da FDIM em Berlim.
Esteve presa em Caxias no ano de 1949 com Virgínia de Moura e Rui Luís Gomes, entre outros. Foi presa mais duas vezes, em 18 de Julho de 1950 e em 20 de Dezembro de 1953, quando regressa do estrangeiro, após ter participado na reunião do Conselho Mundial da Paz, é presa no Aeroporto pela PIDE que prende também as cerca de 50 pessoas que a esperavam, entre as quais a pintora Maria Keil do Amaral e seu marido o arquitecto Francisco Keil do Amaral, Sofia Dias Coelho, Antónia Lapa, Maria Machado. Perante a indignação da violência da polícia política, o Movimento das Mulheres Portuguesas apela à luta de imediato através do folheto Corre Perigo a vida de Maria Lamas, realçando a sua destacada personalidade e reconhecido mérito. Entre fins de 1957 e 1959 viveu na Madeira para fugir à repressão, vindo a exilar-se em Paris de Junho de 1962 a 3 de Dezembro de 1969. Regressa a 3 de Dezembro e vai para Évora onde vive com sua filha Maria Cândida Caeiro. Como conferencista e oradora tem uma intensa actividade.
A Paz é um dos seus temas de eleição, sempre ligada à causa da emancipação da mulher e à protecção das crianças. Em Maio de 1950, terminada a II Guerra Mundial, o País vivia em sobressalto nesta luta pela Paz. Maria Lamas intervém na Conferência “A Paz e a Vida” na sede da Associação Feminina para a Paz, no Porto, ao lado de Teixeira de Pascoais.
Vejamos alguns significativos tópicos. A Humanidade evoluiu e aprendeu, através da mais cruenta experiência, que na guerra, tanto as derrotas, como as vitórias, correspondem a sacrifícios, destruições e angústias, que são a negação flagrante de todo o progresso, de todos os princípios construtivos e civilizados. (…) Os povos reconhecem que só na Paz – uma Paz estável e justa! – será possível resolver os seus problemas, não em teoria, mas realmente, em face das suas necessidades, dos seus direitos e das suas naturais aspirações. (…) Não é possível chegar a uma Paz estável, se toda a acção desenvolvida tiver em vista a guerra. Só a renúncia categórica ao emprego da violência pode libertar as nações do medo e da desconfiança mútua, levando-as a uma cooperação pacífica e leal! ( …) Se todos nós, homens e mulheres soubermos querer, a PAZ será a mais bela conquista deste século, porque a batalha da Paz é a batalha da Vida LAMAS, Maria, PASCOAIS, Teixeira de, Duas Conferências em Defesa da Paz, Porto, Associação Feminina Portuguesa para a PAZ, 1950.
A 5 de Junho de 1950 subscreve o documento fundador da Comissão Nacional para a Defesa da Paz.
Em Dezembro de 1952 participa no Congresso dos Povos para a Paz. Em 1953, é eleita, em Bucareste, como membro do Conselho Mundial da Paz. Em Julho de 1962, encabeça a delegação portuguesa à Conferência para a Paz e o Desarmamento, em Moscovo e em 1963, participa no 5º congresso da FDIM onde, perante as 1 400 delegadas, vindas de todos os cantos do mundo, entre as quais mulheres dos movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas, terá feito um discurso brilhante sobre a situação das mulheres portuguesas vivendo sob a ditadura. Convidada e recebida por altas figuras públicas internacionais, viaja por inúmeros países participando em vários congressos pelos direitos das mulheres e pela paz. Maria Lamas participa em congressos e conferências na URSS, China, Japão, Argélia, Ceilão, Albânia e por toda a Europa que a consagram como a figura portuguesa, incontornável, da luta pela Paz e pelos direitos das Mulheres, na cena internacional.
Depois do 25 de Abril, não deixa cair este nobre ideal e nunca deixa de associar à liberdade a questão da Paz. Quero paz que corresponda a uma transformação integral de tudo o que está errado nos homens (…) uma paz de permanente luta. Toda a minha vida foi uma luta contra aquilo que me apresentaram como irremediavelmente acabado (,,,) A vida é ou tem de ser amor, paz, liberdade. (Homenagem do MUTI a Maria Lamas. Uma vida de luta pela vitória da paz”, in Diário do Sul, de 12 de Maio de 1976), A Paz é uma espécie de Revolução (…) só na Paz é possível a renovação de cada mulher, de cada homem…porque o grande inimigo da humanidade é a guerra…Por isso quando apelo às mulheres portuguesas «Paz! Paz !», apelo a
que de mãos unidas transformem o mundo e se conquistem como seres humanos de plenos direitos.(…) (Helena Neves, «Maria Lamas, uma vida no feminino colectivo (II)», in O Diário, Literatura, de 11 de Abril de 1982). Qualquer guerra que se desencadeie propaga-se de imediato. Os focos de guerra existentes são uma ameaça permanente. Já vi muitas guerras, tenho uma experiência de vida que me leva sempre à mesma conclusão: o direito das
pessoas a uma vida equilibrada, sem exploração, é inadiável e irreversível,
(Fernando Dacosta, «Maria Lamas: a mãe-coragem de uma geração», in Jornal, de 12 de Março de 1982).
A dignidade das mulheres: a questão da sua vida As mulheres que lutam pela dignificação do sexo feminino constituem quase sempre uma minoria. Mas isso não diminui nem a importância nem a justiça das suas reivindicações” (ML, A Mulher no Mundo, Vol.II: 646) A condição da mulher está de tal forma ligada aos problemas fundamentais da humanidade que não será possível separá-los (ML, A mulher no Mundo, Vol.I: 577)
Apesar das dificuldades e limitações que lhe têm sido postas, o papel desempenhado pela mulher no desenvolvimento da Humanidade, em todos os campos, tem sido tão grande, tão espantoso, que não deixa lugar para dúvidas acerca da sua força moral, do seu valor como
elemento de trabalho, da sua capacidade intelectual e poder de realização (ML, A Mulher no Mundo, Vol I: 581)
Maria Lamas é uma das fundadoras do MDM, a 1ª signatária da escritura pública da criação deste Movimento. Foi Presidente Honorária do Movimento Democrático de Mulheres desde 1975. Esteve presente no III Encontro Nacional em 1977 e no I Congresso do MDM em 1980.
Foi Directora da Revista Mulheres criada em 1978. No meio de cravos vermelhos e brancos, com toda a gente de pé, no dia 8 de Março de 1982, no S. Luis, com 88 anos, foi a primeira personalidade a receber a distinção de honra do MDM que Maria Lamas agradeceu comovidamente. Também em vida, recebeu a medalha Eugénie Cotton, a mais alta distinção da FDIM, em 22 de Março de 1983, na Casa do Alentejo, entregue pela Secretária-Geral daquela organização, a finlandesa Mirjam Vire-Tuominen.
A liberdade que Maria Lamas viu nascer como seu filho também, trouxe-lhe merecidas homenagens de todos os sectores. A Ordem da Liberdade atribuída pelo Presidente da República, General Ramalho Eanes, em 25 de Abril de 1980, marcará certamente o pendor universal da sua vida, do seu pensamento e da sua acção, mas, muitas outras homenagens tiveram o cunho do enaltecimento da sua dedicação e estatura moral e ética, em prol de causas em que as mulheres, os intelectuais, os políticos, os artistas, os democratas, o povo, se entrelaçaram por valores como a Igualdade, os Direitos humanos e a Paz.
A Assembleia da República atribui a Maria Lamas a Medalha de Ouro comemorativa do 50ºaniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que é entregue a sua neta Maria Leonor Machado de Sousa, em 10 de Dezembro de 2008. Na Câmara de Évora, recebe a 19 de Novembro de 1982, a Medalha de Ouro de “Instrução e Arte”concedida pela Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio e a Câmara de Torres Novas concede-lhe igualmente a Medalha de Ouro, em cerimónia pública.
Após a sua morte várias manifestações por todo o país consagraram Maria Lamas na toponímia de várias cidades e vilas, nomeadamente no Porto, Torres Novas, Odivelas, Almada, Vila Nova de Famalicão, Setúbal, Faro, Lisboa. Organizam-se e mostram-se exposições da sua vida e obra, multiplicam-se conferências um pouco por todo o País.
Bibliotecas, museus ou escolas têm o seu nome como mulher da cultura, Em Torres Novas, sua terra natal foi inaugurado um Monumento a Maria Lamas, no centenário do seu nascimento, por iniciativa do MDM.
Uma trajectória de luta. Um exemplo de ética.
O sentido da vida é torná-la melhor.
Vulto da Cultura Portuguesa, foi uma insigne defensora do progresso universal indissociável da paz, da igualdade entre homens e mulheres, uma igualdade traduzida “na realidade da vida humana e na construção do seu destino e da sua felicidade”.
Uma realidade de justiça social indissociável da felicidade humana. “Povos felizes são povos que têm trabalho garantido, que não têm fome, que não sofrem perseguições, que desfrutam de uma vida pacífica”, pode ler-se na entrevista concedida a Fernando Dacosta, «Maria Lamas: a mãe-coragem de uma geração», in Jornal, de 12 de Março de 1982.
A sua vasta obra, o seu carácter e coerência, a sua inteligência são hoje revisitadas em vários espaços culturais e educativos, na história local, na vida dos Museus e Bibliotecas e reconhecidos na pena de muitos escritores e políticos do seu tempo. Figuras públicas, nomeadamente deputados da Assembleia da República, de todos os partidos políticos, salientaram as suas inequívocas qualidades. Pela sua importância para o espaço da Assembleia da República, no contexto da nossa proposta, apresentam-se excertos das suas intervenções na sessão de 9 de Março de 1982, que estão publicadas no DAR I Série, número 62 de 10 de Março de 1982.
Sempre mais alto … até onde eu puder
Não dou à mulher, sistematicamente, categoria de vítima ou de heroína: limito-me a apresentá-la tal como ela tem vivido. Se me refiro em especial a algumas figuras femininas que se notabilizaram pela sua beleza, pelo seu talento, pelos seus amores, coragem, virtudes, crimes ou vida amorosa, é porque essas figuras concretizam o apogeu do prestígio da mulher, ou da sua decadência e miséria, em determinados períodos, sendo assim pontos de referência indispensáveis para se acompanhar a sua evolução. Só por isso as destaco da multidão anónima, que é onde se encontra o nível comum do desenvolvimento da mulher e as condições gerais da sua vida.
(Maria Lamas, Prefácio, A Mulher no Mundo, VolI)
Maria Lamas, enaltecia as mulheres, num cenário de universalidade e transversalidade das suas causas. Tecia essa trama complexa, entre o particular e o universal, visando compreender a diversidade das mulheres e com elas agir. Maria Lamas deixou o seu rasto como cidadã. Dirigente do movimento das mulheres acreditou sempre no papel insubstituível da organização das Mulheres para construir um mundo melhor de igualdade para cidadãs e cidadãos.
Maria Lamas, com a sua escrita solidária e em tribunas internacionais, engrandeceu os movimentos e as associações que criou ou ajudou a criar, ligando generosamente o brilho dos seus gestos individuais ao dos colectivos – defendendo valores e direitos, pugnando pela liberdade e a democracia, contra o regime fascista assumindo no quotidiano, as bandeiras e os ideais da igualdade, da justiça, da paz, da solidariedade.