MULHERES DE ABRIL

Fernanda Lapa, nasceu em Lisboa, 11 de maio de 1943 e morreu a 6 de agosto de 2020.  

Actriz, Encenadora, Directora Artística da Escola de Mulheres

 

 

 

 

Maria Fernanda Mamede de Pádua Lapa, nasceu em Lisboa, 11 de maio de 1943 e morreu a 6 de agosto de 2020. É filha de Fernando de Pádua Lapa e de Palmira Mamede.

Actriz, Encenadora, Directora Artística da Escola de Mulheres e uma eterna apaixonada pelo Teatro.

Desde cedo que Fernanda Lapa soube que o Teatro seria a sua vida. Começou a encenar muito nova, num meio dominado por homens e tem um vasto currículo nos palcos, na televisão e no cinema.

Foi fundadora da Casa da Comédia onde se estreou como actriz, na peça de Almada Negreiros “Deseja-se Mulher”, em 1963. É com essa mesma peça que se estreia como encenadora, também na Casa da Comédia, em 1972.

Em 1979 obtém uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura, que a levou a frequentar a Escola Superior de Encenação de Varsóvia. Nesta escola diplomou-se em Encenação, realizando em seguida estágios no Teatro Laboratório de Grotowski, no Teatro Contemporâneo de Wroclaw e no Teatro Stary de Cracóvia.

Desde então dirigiu espectáculos de Teatro, Teatro-Dança e Ópera tornando-se numa das encenadoras mais conceituadas do país.

Desenvolveu, ao longo da sua carreira, acções pedagógicas na área do Teatro e do Cinema e trabalhou como actriz em Teatro, Televisão e Cinema.

À frente da Escola de Mulheres desde a sua criação, em 1995, sempre afirmou que é na encenação que se sente realizada. Quer na Escola de Mulheres, companhia que fundou, juntamente com Isabel Medina, Cucha Carvalheiro, Cristina Carvalhal, Aida Soutullo, Conceição Cabrita e Marta Lapa, quer fora dela, sempre manifestou activamente o seu interesse pelas questões das Mulheres na Cultura, e não só.

Defendeu sempre, pelas suas próprias palavras, que “o Teatro reflecte todas as contradições, avanços e recuos do papel da Mulher na Sociedade Contemporânea. Ao longo dos séculos, a voz das Mulheres foi silenciada em várias áreas, e também na Cultura, e não vale a pena escamotear esta realidade. Sofremos, ainda, as sequelas dessas mordaças, embora muito se tenha avançado, a partir do 25 de Abril em Portugal, pela luta das forças progressistas, mas sobretudo das próprias Mulheres e das suas Organizações.”

Por manifesta vontade de Fernanda Lapa, e das restantes companheiras de Teatro, a Escola de Mulheres nasce com o intuito de romper com o estado de coisas a que estavam remetidas as mulheres no teatro português. Quase nunca nenhum texto de autoria feminina era representado, havia pouquíssimas encenadoras e estas ficavam na maior parte dos casos sempre à espera de serem convidadas pelos Directores das Companhias. A maioria das peças representadas davam da mulher imagens estereotipadas ou idealizadas e os elencos eram maioritariamente masculinos. As actrizes esperavam ser convidadas e nunca tinham hipótese de escolher os textos que gostariam de representar. Na maior parte das Companhias as mulheres tinham funções de secretariado, eram bilheteiras, costureiras ou empregadas de limpeza. Havia muito poucas mulheres em funções técnicas, tais como na Luminotécnica, na Sonoplastia, construção de Cenários, etc., profissões tradicionalmente masculinas. A Escola de Mulheres – Oficina de Teatro nasce como companhia que privilegia, desde a sua criação, o trabalho feminino e que procura dar uma imagem da mulher consentânea com a realidade.

Encenou inúmeras produções de Teatro e Ópera. Na área da Dança colaborou em criações com Francisco Camacho. No cinema trabalhou com nomes como Artur Duarte, Margarida Gil, Monique Rutler, Luis Filipe Costa, Pedro Senna Nunes, Fernando Vendrell, Jorge Paixão da Costa, Tiago Guedes, Eduardo Serra.

Foi, até Agosto de 2012, Professora Catedrática Convidada e Directora do Conselho do Departamento de Artes Cénicas da Universidade de Évora – Licenciatura e Mestrado; Escola Profissional de Teatro de Cascais (Intérpretes); Universidade Intergeracional (UNIESTE).

Recebeu o Globo de Ouro (2005), pela produção de A Mais Velha Profissão de Paula Vogel. Foi distinguida em 2005 com a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Em 2019 lançou-se na coordenação das Comemorações Nacionais do Centenário de Bernardo Santareno (1920-2020), que tiveram o seu início em Janeiro de 2020 e que foram interrompidas pela Pandemia do COVID-19 e que se prolongarão por 2021, sob a coordenação de Domingos Lobo.

O MDM atribui-lhe a Distinção de Honra do MDM em 1994, distinção que recebe em 1995 no Cine Teatro S.João, em Palmela. Na cerimónia da entrega dizíamos “Fernanda Lapa é um valor da cultura portuguesa, da cultura onde se inscreve a nossa identidade feminina de raiz popular. Ela é um grande exemplo de tenacidade e coragem, de imaginação e criatividade. Ela é uma impulsionadora. Ela é um estímulo para muitas mulheres neste quotidiano incerto, onde a única certeza é de que só com muito empenhamento e motivação conquistaremos o que desejamos. Ela conjuga com amor e alegria a vida artística e a vida familiar e pessoal. Dá ternura e inteligência à vida cívica e social. Vive com intensidade e paixão a vida política”.

A homenagem do MDM a Fernanda Lapa estendeu-se “às mulheres que no teatro souberam pisar o palco, entrar em cena, ganhar o terreno da cidadania” e foi assim que ela a entendeu. Fica em nós a recordação do seu ativismo no MDM e na causa da emancipação das mulheres no teatro e na vida.

*Alguns dos dados biográficos elaborados por A Escola de Mulheres no seu obituário