MULHERES DE ABRIL
Paula Figueiroa Rego nasceu a 26 de Janeiro de 1935, faleceu a 8 de junho de 2022
Pintora
«O desenho de Paula Rego é uma escrita. Paciente, determinada, barroca e condescendente ao mesmo tempo. É uma escrita que se aprende na solidão, que pede a aprovação desse mago interior que se chama arte. (…) A arte de Paula Rego é duma riqueza psicológica extraordinária. (…) Paula tem uma garra que nos deixa inquietos. As mulheres não exprimem desejo nem sofrimento. Têm momentos de repouso. (...) Não é melancolia, é pura indiferença. A mulher que trabalha não tem sentimentos fúteis, tem paixões, esplendores do coração...» Agustina Bessa-Luís
Paula Figueiroa Rego nasceu a 26 de Janeiro de 1935, em Lisboa. Oriunda de uma família republicana e liberal, com ligações às culturas inglesas e francesa, entra na St. Julians School, em Carcavelos, residindo durante a infância e adolescência no Estoril.
Incentivada pelo pai a prosseguir o seu desenvolvimento artístico fora do Portugal salazarista dos anos 50, porque para o pai, Portugal «não é terra para mulheres».
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Paula Rego ingressa na prestigiada Slade School of Fine Art, em Londres, com apenas 17 anos. Será aí que conhecerá vários artistas, entre os quais o seu futuro marido, Victor Willing, com quem vem a casar em 1959 e de quem vem a ter três filhos (Carolina, Victoria e Nicholas). Pintor e crítico de arte, Victor Willing teve um papel crucial no desenvolvimento artístico de Paula Rego.
De 1957 a 1963 Paula Rego e a sua família vivem na Ericeira e entre 1963 e 1975 passam a viver no Reino Unido e em Portugal mas em 1976 fixam definitivamente residência em Londres.
No ano 1988, realiza a sua primeira grande exposição individual na Serpentine Gallery, Londres, Reino Unido, no mesmo ano em que o marido, Victor Willing morre de esclerose múltipla, após um longo período de doença.
Recebe ainda enquanto estudante, em 1954, o 1.º prémio de Summer Composition, Slade School of Fine Art, Londres escola onde em 1983 passa a lecionar como professora convidada. de Pintura
Em 1990 é convidada para integrar a 1ª edição do programa Associate Artist Scheme na National Gallery em Londres,
Tem uma notoriedade imensa na academia inglesa recebendo títulos de grande prestígio. Recebe o título de Mestre honoris causa em Arte pela Winchester School of Art, Hampshire, em 1992 e em 1999 recebe o título de Doutora honoris causa em Letras pela University of St. Andrews, Fife, Escócia, e ainda o título de Doutora honoris causa em Letras pela University of East Anglia, Norwich, também no Reino Unido. Em 2002 volta a receber o título de Doutora honoris causa em Letras pelo The London Institute, Londres e de novo, em 2005, recebe o título de Doutora honoris causa em Letras pela Oxford University, Oxford e o mesmo em Letras pela Roehampton University em Londres. No ano seguinte, recebe o título de Doutora honoris causa em Letras pela Rhode Island School of Design, Rhode Island, Estados Unidos da América.
Em Portugal só em 1995 é condecorada por Mário Soares e depois em 2004 é condecorada pelo Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, e é no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, que se vê pela primeira vez uma grande retrospectiva do seu trabalho, no ano de 2004.
Sem dúvida, é com a abertura em 2009, da Casa das Histórias Paula Rego, que passamos a ter a possibilidade de ler e reler a sua obra, de a comparar com outros autores e pintores que a influenciaram, de perceber a dimensão humana de todas as histórias que ilustra. A Casa das Histórias Paula Rego em Cascais é um museu dedicado à obra de Paula Rego e Victor Willing, com projecto arquitectónico de Eduardo Souto de Moura, que lhe mereceu ser distinguido pela terceira vez com o Prémio SECIL de Arquitectura 2010, atribuído pela SECIL e a Ordem dos Arquitectos, exactamente pelo projecto da Casa das Histórias Paula Rego. O galardão, atribuído de dois em dois anos, é reconhecido como o prémio referência da arquitectura portuguesa.
O edifício, em cor de tijolo, destaca-se pelas duas pirâmides de vértice cortado, está rodeado por um jardim, com uma esplanada servida por uma cafetaria. Possui ainda um auditório, com cerca de duzentos lugares, uma biblioteca e uma livraria, onde também estão à venda objectos com a iconografia da obra da artista e reúne um assinável espólio da artista e seu marido. O Museu Casa das Histórias, gerido pela Fundação Paula Rego, reúne mais de 700 obras da pintora e do seu marido, Victor Willing, que morreu em 1988: mais de 530 gravuras e desenhos da pintora, por ela doados, e cerca de 200 estudos preparatórios e esboços da artista, bem como 15 óleos de Willing e 52 pinturas de Rego, algumas delas emblemáticas, cedidos a título de empréstimo.
Em 2010, a pintora Paula Rego, com 75 anos, foi eleita a Personalidade Portuguesa do Ano pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal, galardão que recebe das mãos da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, no Casino Estoril no dia 08 setembro. Nesta altura terá referido que a presença da Casa das Histórias em Cascais prova que Portugal já é País para mulheres… numa alusão ao que o pai previra 60 anos antes. Mas não tarda que a sua jóia se perca…e a sua desolação se instale. O Governo de Passos Coelho decidiu extinguir a Fundação Paula Rego/Casa das Histórias, em Setembro de 2012, entre muitas outras entidades que o Governo decidiu suprimir.
Para além do desalento para a arte, será tempo para também nos questionarmos acerca da determinante género nas opções deste governo.
Entretanto, Paula Rego, em Inglaterra tem nome firmado nas Galerias mais reconhecidas e a sua obra é de grande notoriedade. A prová-lo está o valor alcançado pelas suas obras e o reconhecimento de Sua majestade. A sua obra Looking Back (1987) é arrematada pelo valor record de 866,175€/£769,250. Pela sua contribuição para as artes, em 2010, foi agraciada pela Rainha Isabel II com o grau de Dama Oficial da Ordem do Império Britânico.
Em Portugal, o seu nome entra na Academia. Recebe, em 2011, o título de Doutora honoris causa proposto pela Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa.
Em 2013, recebe o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso (Consagração) no Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante, Portugal.
As mulheres de Paula Rego têm uma forte expressão. Retêm o mistério e a situação dolorosa que lhes coube na sociedade o que a pintora denuncia no papel e com as suas paletas de cor e pastel. Os seus modelos não são desconhecidos. As mulheres que aparecem nos seus quadros são a enfermeira do seu esposo, Lila Nunes, e as suas duas filhas. A sua grande biografa Ruth Rosengarten resume desta forma esta visão plural de mulher de Paula Rego. São mulheres, mães, filhas, idosas, parteiras, avozinhas, a mulher dos bolos, a mulher em festa. “Acima tudo, vemos nas protagonistas femininas de Paula Rego sujeitos que lutam tanto para conquistarem a sua autonomia relativamente às mães como para reclamarem o seu direito de intervenção numa economia patriarcal de troca e num regime autoritário”
«O desenho de Paula Rego é uma escrita. Paciente, determinada, barroca e condescendente ao mesmo tempo. É uma escrita que se aprende na solidão, que pede a aprovação desse mago interior que se chama arte. (…) A arte de Paula Rego é duma riqueza psicológica extraordinária. (…) Paula tem uma garra que nos deixa inquietos. As mulheres não exprimem desejo nem sofrimento. Têm momentos de repouso. (…) Não é melancolia, é pura indiferença. A mulher que trabalha não tem sentimentos fúteis, tem paixões, esplendores do coração…»
Agustina Bessa-Luís
Os pontos de vista políticos emergiram na sua obra nomeadamente em Salazar a vomitar a Pátria, de 1960, Sempre ás ordens de sua excelência (1961) e em Cães de Barcelona em 1965, obras concebidas como “diatribes contra as ditaduras fascistas” que dominavam Portugal e Espanha.
Portugal e a portugalidade estão presentes em toda a sua obra, nas mulheres que desenha e pinta. É portuguesa dos pés à cabeça, menina e moça da casa de seus pais portugueses. A ironia, o humor, o grotesco e a desmesura significam a subversão da sua linguagem, uma rebeldia face ao estatuído numa sociedade que humilha e ofende. Usa-os na sua iconografia para desconstruir as imagens de família idealizada do fascismo, a maternidade naturalizada e a mulher-mãe e objecto, como aparecem nos livros escolares e cartazes da época salazarista, no auge da sua agressividade ideológica. Ao fim ao cabo, diz Paula Rego, ver a feminilidade como tão só maternidade é desprovê-la da sua função histórica, política e cultural.
Mas, no pós 25 de Abril, são várias as expressões do seu descontentamento e fúria sobre o que se passa em Portugal. A série de quadros sobre o aborto, feito no ano de 1998, corresponde a esse estado de fúria em resposta à inércia da opinião pública portuguesa sobre a não legalização do aborto, em resultado do primeiro referendo em 1997. A serie de quadros com mulheres realizando práticas clandestinas deixando claro que a proibição não as impediria de abortar, testemunham a resiliência e a persistência das mulheres. São testemunhos da própria vida das mulheres. Ainda que nos seja difícil encarar o mundo aparentemente sombrio, deprimente, de algum modo desesperado das imagens que nos apresenta, elas não são vítimas, são imagens que como ela diz “sobreviverão”. A sua revolta nasce da vida que viu à sua volta. “Na minha aldeia testemunhei como tudo se fazia às escondidas, vi a dor e a vergonha. Tantas mulheres me vieram pedir dinheiro para abortar…Por vezes, morriam de septicemia. Ou lavavam-se na praia, as entranhas saídas, como vacas esventradas”.
Entendendo a arte como veículo para transmitir a experiência humana, Paula Rego utiliza as suas composições como gritos que lhe saem das vísceras, contra a violação, a violência, o abuso de poder, gritos de indignação pela injustiça numa permanente interrogação da condição humana na sociedade em que vive.
Diz-se que a pintora parece querer com a sua arte mudar o mundo. Na verdade, é o seu compromisso ético enquanto artista.