Parabéns, Teolinda Gersão
A escritora Teolinda Gersão venceu a 43.ª edição do Grande Prémio de Romance e Novela, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) pelo romance Autobiografia não escrita de Martha Freud[1]. O júri destacou por unanimidade “a força imaginativa na reconstituição do passado e o talento narrativo de Teolinda Gersão”, confirmando “as qualidades de uma escritora excecional”.
Para o Movimento Democrático de Mulheres (MDM), a atribuição de mais um prémio a esta mulher escritora e enorme cidadã do mundo, é o reconhecimento da sua trajetória de mulher atenta aos outros, à condição social e afetiva das mulheres, atenta ao seu país e ao mundo em que vive, trazendo para a literatura um pensamento critico e humano que atravessa afinal os seus romances e contos com que tem ganho prémios de enorme relevo.
Saudamos por isso, a sua abordagem da causa feminista que continua a merecer uma luta sem desânimos. Teolinda Gersão centra as suas histórias no espaço vital da democracia, na defesa dos valores, na defesa da igualdade e do património histórico e cultural das mulheres sujeitas historicamente a abdicar de si.
Autobiografia não escrita de Martha Freud é um romance que ficciona a vida relacional e íntima de Freud com sua mulher, Martha, que sempre se deixou ofuscar pela sapiência e notoriedade de seu marido Sigmund Freud, o pai da psicanálise, cientista de renome e fama mundial. Ela que ficou apagada e remetida ao silêncio, na sua clamorosa divergência de opiniões.
Teolinda Gersão neste romance, assente numa investigação minuciosa da correspondência íntima entre ambos, resgata essa figura apagada de Martha e dá-lhe vida, uma vida cuja existência no Séc. XIX nos remete para o patamar de uma mesma discussão na atualidade. A par de tantas mulheres, escritoras ou cientistas, que sufocaram os seus talentos na obscuridade, invisibilidade, silenciamento e opressão, Martha vai confessando nas suas cartas e desabafos o seu triste viver, mas também a sua ânsia de reescrever a sua história. Martha revisita a sua vida a par da de Freud e, embora tardiamente impõe-se, já que :
“as duas vozes têm igual direito a ser ouvidas”
Quando, arrojadamente, o júri qualifica a obra percebemos que a perspicácia do júri sintoniza com a reflexão feminista do tempo de hoje e atualiza o combate que a escritora persegue. Sim, diz Teolinda Gersão:
“é preciso falar das coisas para as combater.
Mas a júri não se limita a uma análise textual e literária. Este romance «além de enaltecer a importância cultural da memória, (o romance ) é o magnífico retrato psicológico de uma mulher que acaba por impugnar o poder patriarcal que a silenciou e oprimiu durante várias décadas. Um poder discriminatório que perdura e prevalece na sociedade atual”
Teolinda Gersão na sua vasta obra reconhecida com múltiplos prémios literários, salpica com diferentes matizes o sofrimento histórico das mulheres. Não esquece a mãe que perdeu o filho na guerra colonial. Não esquece esses anos amordaçados quando as vozes das mulheres e das famílias não podiam ser ouvidas, antes de 1974.
A escritora, a professora catedrática de Literatura alemã e Literatura comparada, é uma Mulher que sente como tantas outras, as dores e os prazeres, os desvios e os desvarios de uma sociedade cheia de desigualdades e abissais diferenças:
“gosto de saber que sou uma entre outras, que partilho a experiência de milhões de outras mulheres”.
O MDM teve a honra de a ter connosco em 2011 na Biblioteca Orlando Ribeiro para nos falar do seu livro A cidade de Ulisses, um texto literário que contaminou o nosso olhar sobre a cidade de Lisboa, a sua geografia, a sua história e as suas gentes. A sua consciência social e atenta ao mundo que a rodeia, dá a ver uma Lisboa que sempre foi uma cidade fragmentada. De um lado a beleza das gaivotas e do rio e do outro a Lisboa da sopa dos pobres, dos sem abrigo, dos drogados, dos desempregados, dos mendigos… antro de injustiças e desigualdades, onde sempre se usaram esses seres humanos, particularmente vindos de África, para os explorar em proveito próprio, vendendo-os como escravos ou usando-os como força de trabalho.
Fala-nos do lugar da mulher. Da diversidade. Em Portugal e no mundo. Somos gente misturada, mestiçada, no sangue e na mentalidade. Vimos de muitas gentes de muitas raças.
Escritora reconhecida dá-nos a realidade com lucidez e agudeza. Fala-nos do lugar subalterno das mulheres ao longo dos tempos, dos problemas candentes que dividiram homens e mulheres, ricos e pobres, desigualdades e grande exploração de vastas camadas da população.
Respigamos algumas reflexões contidas em entrevistas e textos literários dispersos, um continuum da sua forma de estar. Nelas reconhecemos um pensamento transbordante de atualidade e urgência. Uma experiência que não volta atrás.
“Aqueles anos da revolução foram fascinantes, por nada do mundo queria tê-los perdido”.
“Há milénios que andamos a tentar construir um mundo mais justo, em que as pessoas sofram menos e haja mais solidariedade e calor humano. Mas, o que vejo é uma sociedade cada vez mais agressiva e a vida mais dura”.
No meio dos encontros, desencontros e perdas ao longo da história, hoje vivemos num mundo “emocional e mentalmente doente (… ) onde as relações afectivas parecem diluir-se “. Ao mesmo tempo que assevera:
“os afectos são o mais importante da vida ainda que nos esqueçamos disso muitas vezes”.
Este romance agora premiado é também um romance político no sentido mais nobre da palavra usada por Teolinda Gersão:
“penso, dizia, que tudo o que escrevi é político, mesmo na história de amor O Silêncio, história de luta pela igualdade de direitos e pelo equilíbrio de poder”.
Ao receber o Prémio Fernando Namora em 2001, antecipava a incerteza de que somos todas portadoras e testemunhas;
“perante a imprevisibilidade do nosso tempo, a minha reação instintiva é procurar a base sólida dos grandes valores intemporais e ter uma visão mais clara do que fazemos afinal no Mundo”
Parabéns, Teolinda Gersão, por mais um prémio de carreira de escritora e por nos dar mais uma lição exemplar de revivificação da memória trazendo até nós Martha Freud essa que fez parte dessa plêiade de mulheres célebres que viveram subordinadamente ao poder hegemónico dos maridos.
O seu romance, libelo acusatório de um mundo injusto e desumano, é também a prova provada de uma luta incessante das mulheres contra o esquecimento e a falha de direitos. Uma luta tão necessária, hoje e agora, quando estão no ar iminentes retrocessos nas nossas vidas de mulheres, trabalhadoras, mães, futuras mães que sonham ter um espaço próprio e o direito a serem felizes.
“O mundo está brutalmente em mudança e em conflito, o futuro incerto é preocupante”.
O seu alerta obriga-nos a pensar e agir. Agir com as vozes ao nosso alcance.
Cá estamos, no MDM, para romper as grilhetas e um dia mostrar que somos iguais em direitos.
Movimento Democrático de Mulheres
17 de setembro 2025
[1] Gersão, T. (2024) Porto Editora


