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Falecimento de Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

O 𝗠𝗗𝗠 não esquece 𝘕𝑜𝘷𝑎𝘴 𝘊𝑎𝘳𝑡𝘢𝑠 𝑃𝘰𝑟𝘵𝑢𝘨𝑢𝘦𝑠𝘢𝑠, essa obra maravilhosa de que foste co-autora. Guardamos na nossa memória esta enorme aventura em que as três Marias se envolveram cuja proibição, apreensão e acusações de crimes contra a moral pública te levaram, com Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, no tempo sombrio do fascismo, a tribunal.

Foi uma obra proscrita, mas profundamente política. Ultrapassou barreiras internacionais. Entre nós, a resistência ao fascismo não calou a audácia nem aceitou a despromoção literária desta obra.

As três Marias trouxeram essa visão libertadora que o fascismo na sua cegueira opressora e discriminatória não perdoou. Não perdoava. Nunca perdoou

Não esquecemos, antes saudamos a tua coragem antes e depois de Abril, a tua entrega às causas daquelas que fizeram abril e que tão bem traduziste em Mulheres de Abril ou em temas arrojados na Revista Mulheres de que foste redactora chefe.

Saudamos a tua coerência quando, ao ser reconhecida como uma poetisa ímpar e celebrada por

júris, por estudiosas, por escritoras e escritores, outros se quiseram apropriar dessa tua notoriedade, desse teu talento, para o usar em nome de um poder perverso, austero e autoritário, longe de abril e das liberdades, longe dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, sujeitados a uma obscena e vil precariedade. Recusaste tal premio em nome da dignidade de uma luta que foi tua e de tantos companheiros.

Hoje, eis justamente as Novas Cartas Portuguesas projetadas entre nós, essa obra premonitória de Mulheres de Abril e de outras que escreveste e nos animaram nas nossas manifestações e lutas. Novas Cartas Portuguesas é claramente um texto desafiador da sociedade do nosso tempo porquanto tantas transformações a que aspirámos continuam por fazer.

A visibilidade e credibilidade literária e científica deste livro que vive há mais de 50 anos é, quanto a nós, o corolário da luta das mulheres e das suas organizações mais coerentes e historicamente arreigadas à denúncia da exploração e da opressão, da afirmação do valor das mulheres. Na verdade, elas (nós) continuam a ser as impulsionadoras de uma combatividade sem barreiras, por um mundo de igualdade em prol do reconhecimento do valor que as mulheres têm no trabalho, nas artes, na literatura, na ciência. É inegável o contributo que as organizações de mulheres dão à Sociedade e à Vida.

A 7 de Maio de 1974, uns dias depois do 25 de Abril as 3 marias foram a tribunal. Porém, já as grilhetas se soltavam. Ao contrário do que sentenciavam os esbirros do fascismo, o juiz com as vestes de um abril moço, concluía pela absolvição das autoras e do seu editor e declarava, “o livro não é pornográfico, nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outros que as autoras já produziram”.

Com o 25 de Abril vingou a razoabilidade. Vingou a decência e a liberdade.

Maria Teresa Horta,

O 𝗠𝗗𝗠 saúda a tua energia e vivacidade contagiantes. Elogiamos o teu percurso porque a tua poesia é ação humana criadora.

Obrigada, Maria Teresa Horta, por nos lembrares até ao fim da tua vida que estamos de novo em tempos de resistência, e por nos vires dizer que a esperança continua a ser possível.

Obrigada por nos trazeres a memória de um abril sempre novo, de um tempo de festa e de sonho, de cravos rubros. Contigo, Maria Teresa Horta, em uníssono, continuamos a dizer” liberdade que nunca mais permitiremos que nos tirem”.

As Novas Cartas Portuguesas são um hino contra o fascismo que espreita de novo neste nosso tempo e contra a misoginia que o acompanha. Serão sempre luzes para nós mulheres, no nosso combate pela Igualdade na Vida. Luzes de Leonor que escreveste sob a forma de poema, na tua clamorosa desobediência ao pensamento dominante, que a par de tantos outros nos deixaste. Tal como tu são obras 𝘪𝘮𝘰𝘳𝘵𝘢𝘪𝘴.

A Direcção Nacional do Movimento Democrático de Mulheres

4 de fevereiro de 2025