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Solidariedade com a Palestina em Lisboa – Intervenção Ana Souto

Amigas e amigos,

Começo por usar as palavras da poetisa Náhida Izzat num dos seus poemas mais comoventes “Quero contar ao mundo”

Quero contar ao mundo uma estória

…sobre um lugar com uma lanterna quebrada…
…e sobre uma boneca queimada…
…sobre um dia no campo que ninguém disfrutou…
…sobre uma tocha que matou uma flor…
…sobre um fogo que consumiu uma trança…
…um conto sobre uma lágrima que já não pôde cair…
Quero contar uma estória sobre uma cabra que já não foi ordenhada…
…sobre um pão que não foi cozido…
…sobre um casamento que não se celebrou…
…e uma menina que não pôde crescer…
…sobre uma bola que não foi chutada…
…sobre uma pomba que não voou…
Quero contar-te uma estória sobre uma chave que não foi usada…
… sobre uma sala de aula que ficou vazia…
…sobre um pátio de recreio que ficou vazio…
…sobre um livro que não foi lido…
…sobre uma horta cercada e sobre seus frutos que ninguém colheu…
….sobre uma mentira que se descobriu…
….
Quero contar uma estória sobre um telhado com erva e lodo…
…sobre uma pedra que enfrentou um tanque…
…e sobre uma obstinada bandeira que se recusa a ser retirada…
…sobre uma esperança que não pode ser derrotada…
…quero contar ao mundo um conto.

A poetisa fala das vivências difíceis de um povo sujeito a práticas de terror, a uma violenta ocupação e colonização por parte de Israel.

E tudo isso acontece alegando Israel de forma hipócrita e demagoga que se defende de ataques palestinos, quando não olha a meios, a forças desproporcionadas para matar, ferir, prender, torturar (inclusive crianças), que se apropria de terras, que divide e isola aldeias, que levanta muros e barreiras, que ocupa e desmantela o território da Palestina, que faz aumentar o êxodo de palestinos que sonham em regressar mas não sabem quando, que retira ou elimina os mais elementares direitos civis dos palestinos, que atenta contra os mais elementares Direitos humanos.

É uma Faixa de Gaza com uma pobreza muito elevada, onde escasseia o emprego, com condições sanitárias muito deficientes, onde o acesso à água, à saúde, ao tratamento hospitalar são quase inexistentes. Prisão de escombros a céu aberto, onde os ataques por parte de Israel não param, onde às mulheres seus filhos são roubados.

É uma Cisjordânia ocupada, com cortes de estrada, destruição de campos agrícolas e das pequenas hortas, check – points com filas imensas, onde a humilhação é uma constante, onde se espera durante longas horas, onde as mulheres chegam a dar à luz, onde são dificultados cuidados médicos aos palestinos em caso de urgência.

E tudo isto acontece com a protecção cúmplice dos EUA e a complacência e silêncio da U.E.

Os EUA ao transferirem a sua embaixada reconhecem Jerusalém como capital de Israel, apoiam de forma incondicional a ocupação ilegal que Israel fez de Jerusalém Oriental, encorajam e apoiam a violenta ocupação e colonização dos territórios palestinos, as criminosas políticas de Israel que violam e desrespeitam sistematicamente o direito internacional e as resoluções da ONU.

Mas a poetisa também fala de um povo valente que luta, que não perde a esperança, que sonha com uma Palestina livre, independente e soberana. Sonham com uma Palestina onde os seus direitos sejam respeitados, onde as crianças possam crescer e sonhar ser crianças, sonham com a Paz.

E são também as mulheres palestinas a afirmar que sem Paz não há luta pelos Direitos das Mulheres, porque no momento é uma das últimas prioridades face a muitas outras, porque a luta pela igualdade tem de andar a par da luta pelos direitos do povo palestino, contra a ocupação da Palestina.

Estamos solidárias com elas, na sua luta diária, na luta pelos direitos do seu povo, na luta pela edificação de um Estado da Palestina livre, independente, soberano, com as fronteiras anteriores a 1967, com a capital em Jerusalém Oriental.

Mas, porque a luta das mulheres e homens da Palestina se entrelaça com a luta das mulheres e homens de outros países Árabes na região, somos solidárias com todos os povos do Médio Oriente e a sua luta.

Por isso, em nome da DN do MDM reafirmo que:

– condenamos as políticas de Israel contra o povo palestino que perdura há 70 anos e se intensifica diariamente.

– protestamos contra o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel ao arrepio das resoluções da ONU.

Sabendo que hoje o Governo Português se recusou e bem a participar na inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém, o MDM augura que o Governo continue a defender a causa da libertação da Palestina, e na senda do respeito pela Constituição da República reconheça o Estado da Palestina com capital em Jerusalém Oriental.

Defendemos uma Palestina livre e soberana que, como diz a poetisa, “tem uma obstinada bandeira que se recusa a ser retirada”, uma Palestina onde persiste uma esperança que não pode ser derrotada.

Viva a Palestina livre e independente!

Lisboa, 14 de Maio 2018

Largo Camões, acto público promovido por mais de 50 organizações e que recolheu o apoio de mais de 100 personalidades.