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Encontro “Pela Paz todas e todos não somos demais!” Intervenção de Regina Marques

Intervenção de Regina Marques, do Secretariado Nacional do MDM no Encontro pela Paz “Pela Paz, todos não somos demais!”, que se realizou ontem, 20 de Outubro de 2018, no Pavilhão Paz e Amizade, em Loures

A luta pela Paz é um imperativo da luta das mulheres no tempo presente  

A paz mundial está ameaçada pela intensa corrida armamentista, pelo aumento e expansão de bases militares, pela proliferação e sofisticação das armas nucleares, pelos desequilíbrios de recursos financeiros destinados à guerra, uma situação que coloca a existência da humanidade e do planeta, mais frágil do que nunca.

Os gastos militares aumentaram como nunca. O orçamento militar aprovado pelo congresso dos EUA para 2019 é o maior de sempre do Pentágono. Ascende à colossal soma de 717 mil milhões de dólares, quando rondava os 300 mil milhões de dólares em 2001. È um gasto que somado ao da NATO supera o de todos os restantes países do mundo.

A situação internacional, com o processo de crescente militarização e o reforço da aliança NATO-EU, comporta elevados riscos para a Paz e a estabilidade mundial.

Num quadro mundial em que a defesa da paz ganha uma importante expressão na luta das mulheres, a OTAN, organização militar supranacional, anuncia promover uma maior participação das mulheres nas forças armadas, bem como nos conflitos que promove em todo o mundo.  A instrumentalização da participação das mulheres na forças agressivas e militares desta organização, braço armado do capitalismo,  visa criar  a ilusão de que essa participação é fundamental para atenuar os crimes de guerra contra as mulheres.

A propaganda da NATO divulgou vezes sem conta alegadas violações na ex-Yoguslávia e na Libia e agora na Síria pelas tropas governamentais. Grande parte revelou-se invenções para justificar os bombardeamentos. Os cascos azuis, forças da ONU destinadas à chamada protecção dos civis em caso de guerra, são acusados e com provas de cometerem abusos sexuais e violações cujas vitimas são mulheres e menores das populações mais desfavorecidas mas em torno dos quais reina o silencio e sobre os quais não há condenações. A violação das mulheres e raparigas e as violências sexuais são usadas como arma de guerra e de terror com consequências devastadoras nas suas vítimas. Mas o muro de silencio sobre os verdadeiros responsáveis permanece.

O sentido geral da evolução da situação das mulheres no Mundo não é de avanço, mas de retrocessos, não obstante as proclamações de igualdade a partir das instâncias europeias e internacionais.

Estas instâncias são cúmplices com opções estratégicas no plano económico, social e militar que impedem que se concretizem muitas das exigências da luta das mulheres.

As guerras climáticas, a procura do domínio de grandes aquíferos e de recursos minerais por parte de grandes multinacionais, associadas ao alargamento da zona de influência da NATO, aprovada na Cimeira de 2010, e o seu reforço militar com o aparecimento de novas bases militares como formas de controlar a agua em continentes como a Africa, America do Sul, Medio Oriente, constituem  ameaças à Paz no mundo.

Os problemas de segurança e a crise da água e alterações climáticas são ameaças e desafios para a democracia.

Porém, a força da luta organizada das mulheres no Mundo,  é atuante e viva.

Na União Europeia, com diferenças entre países, as mulheres destacaram-se na luta de resistência aos retrocessos nomeadamente nos direitos laborais. Na luta de solidariedade contra os abusos e violências sobre as refugiadas e imigrantes. Merecem destaque as grandes lutas de solidariedade com as trabalhadoras vítimas de repressão sindical e exploração laboral, e também a solidariedade com as mulheres da Palestina, da Síria, da Líbia, do Iraque, do Sahara Ocidental vítimas de guerras fratricidas estimuladas e apoiadas pelo sionismo e o imperialismo.

A União Europeia tem sido cúmplice da guerra e da insegurança. Em nome do combate ao terrorismo e à criminalidade, bem como para refrear as migrações estão sendo feitos “acordos de cooperação” da União Europeia com países do Medio Oriente e Norte de Africa para impedir o transito das vítimas das guerras. O reforço de organismos supranacionais de controle  de informação e dados pessoais, justiça e segurança aprovados no Parlamento Europeu, confirmam uma deriva securitária da estratégia  da União europeia, a impor aos estados membros, em violação da sua soberania.

Os EUA, a NATO, a EU e os seus aliados fomentam e apoiam guerras em nome da “Democracia”, em nome dos “Direitos humanos” e criam hipocritamente mecanismos para a “igualdade de género” que não são mais do que instrumentos fraudulentos de sedução e propaganda que visam criar a ilusão de que é possível avançar nos direitos das mulheres tendo estas opções como pano de fundo.

A ameaça e o perigo real para a Paz vem desta aliança – EUA, NATO e União europeia, que se prepara para a modernização e sofisticação do seu arsenal belicista, nomeadamente com novo armamento nuclear, com a evolução da guerra cibernética e a militarização do espaço.  Esta é a novidade deste colossal orçamento- a criação de uma força espacial com hegemonia absoluta e a capacidade de atingir qualquer outro país a partir do espaço.

Na Cimeira de Bruxelas de 2018,  a NATO decidiu reforçar a sua capacidade de dissuasão e defesa, intensificar a luta antiterrorista, ampliar  astronomicamente os gastos, criar novos comandos militares para apoio logístico, unidades de defesa cibernética e de luta contra “ameaças híbridas”, que ninguém sabe o que são, mas que dizem que tais ameaças vêm da Russia para lançar o caos e vão dando exemplos como um apagão de luz, descarrilamentos de transportes, apagão informático. Eis pois a justificação dos EUA para uma subida da participação dos estados membros de 2% do PIB para 4% e partilhar como dizem “os encargos financeiros de forma mais justa”.

Para além das guerras militares, assistimos a uma verdadeira guerra económica com o objectivo de estrangular economias e destruir governos e políticas que lhes são incómodas. As sanções económicas e financeiras impostas pelos EUA a países independentes como a Venezuela, o Irão, Rússia, China, Coreia do Norte para não falarmos do bloqueio económico a Cuba com mais de 50 anos, mostra bem o alcance das suas medidas ditas humanitárias. Estas sanções impostas ao arrepio do direito internacional e de tratados assinados no âmbito desse mesmo direito, são verdadeiras armas de guerra,

A crescente militarização e o pesadelo de um eventual uso das armas nucleares esteve no olho do furacão mundial da ultima década.

Apesar dos desmentidos sobre o provável arsenal e uso de armas químicas, biológica ou nucleares no Irão, Coreia do Norte, Siria tal como no Iraque ou na Líbia em tempos passados, os EUA e seus aliados insistem e não param de acenar com preocupantes intervenções e ingerências.

Sanções económicas e posições unilaterais à margem da ONU são usadas como armas poderosas. Como a mesma arrogância não cumprem o Tratado de não-proliferação de armas nucleares, aprovado por 122 países na Assembleia Geral da ONU em 2010 e agora mais recentemente recusam assinar o Tratado de Proibição de armas nucleares adoptado em 7 de julho de 2017 assinado por 50 dos 193 estados membros da onu .

É perigoso. Muito perigoso porque a experiencia mostrou quem usou as bombas atómicas, lançadas sobre Hiroshima e NagasaKi, os bombardeamento na guerra do Vietnam, o uso de produtos químicos e biológicos como o napalm e o agente laranja que queimaram dezenas de aldeias vietnamitas habitadas, com milhares de pessoas ainda sobreviventes num sofrimento horrível e que continua a ser uma veemente bandeira de luta da organização de mulheres do Vietnam exigindo a devida reparação de danos aos agressores.

Não é de mais afirmar que são reais os perigos de uma guerra nuclear no presente e tudo devemos fazer para a evitar. A luta das mulheres mundo fora é confiante e tenaz.

Referimos a titulo de exemplo, a luta intensa das mulheres do Japão, nomeadamente através da Federação FUNDAREN, para que o governo japonês deixe de ser chapéu nuclear dos EUA  e assine os tratados de proliferação e proibição das armas nucleares. Para além dos custos elevadíssimos da militarização uma explosão nuclear hoje seria uma tragédia pior do que a de 1945. Duas bombas atómicas americanas converteram Hiroshima e Nagazaki  em ruínas e provocaram a morte de 210.ooo pessoas. Ainda hoje mais de 200.ooo sobreviventes sofrem os seus efeitos. As organizações de mulheres e outras não governamentais japonesas não esquecem e prudentes lançam em Outubro de 2017 um apelo internacional pela proibição total das armas nucleares numa campanha que pretende recolher até 2020,  5 milhões de assinaturas dirigidas aos governos de todos os países para iniciarem sem demora as negociações de paz.

Convocadas que fomos por esta organização japonesa filiada na FDIM, também o MDM dirigiu o apelo ao governo Português para que assine este tratado de proibição de armas nucleares, embora sem resposta até hoje.

Num clima de grande tensão internacional gerada pela tentativa dos EUA de ingerência na Coreia do Norte, com ameaças da administração TRUMP de invasão e destruição total daquele país soberano, o MDM não pode deixar de manifestar a sua solidariedade com as mulheres da União socialista de Mulheres Coreanas no sentido do desejo de uma solução pacifica do conflito. Hoje uma tensão nuclear não é só um problema coreano. É um problema de todas nós. Daí que se tenha intensificado a solidariedade para com o povo e as mulheres da Coreia. O MDM teve a honra de participar na  Marcha de solidariedade da FDIM, em 22 Abril de 2018 em Pyongyang, capital da RPDC, a favor da distensão nuclear e da reconciliação das duas coreias. Estivemos, mulheres de uma vintena de países, a manifestar junto do Monumento das 3 Cartas para a Reunificação da Pátria perante centenas de mulheres coreanas a nossa determinação de lutarmos juntas e todas pelo desarmamento nuclear e pela paz naquela península, o mesmo é dizer, no mundo e no planeta, salvaguardando a humanidade.

Saímos confiantes … o diálogo intensificou-se, e mostrou-nos como a paz e a concórdia estão do lado dos que lutam por causas nobres, progressistas, que amam a justiça e lutam com o seu povo com a razão das ideias.

Como sabem o MDM realiza o seu X Congresso no dia 27 de Outubro sob o lema Igualdade na vida O combate do nosso tempo. Nesta batalha pela Paz procuraremos  contribuir para que o Estado Português, assuma uma posição clara em cumprimento do Direito internacional, contra as guerras militares, económicas e de ingerência sobre povos e Estados, pelo desarmamento e pela Paz.

A luta pela paz e pelo desarmamento é uma luta que as mulheres travam em todo o lado, associada à luta pela igualdade, o progresso e o desenvolvimento, porque elas foram e são as primeiras a viver o caos, a dor e a perda das suas referências, sempre que há guerras e em todos os conflitos armados de que há memória.

Queridas amigas e amigos, Direcção do CPPC e outros movimentos, a nossa participação, a participação do MDM entre todos vós, como força colectiva amante dos valores de Abril é sinal da esperança e da confiança que pomos na luta pela igualdade na vida e pela defesa da paz.

Pela Paz e o desarmamento, todas e todos não somos demais.

Loures, 20 de Outubro de 2018